“Eu já me considero um universitário”, resume Valdemir Bispo de Jesus. Após passar noites e dias vagando pelas ruas do Distrito Federal e de Goiânia, a capital de Goiás, envolver-se com crack e praticamente chegar ao fundo do poço, esse baiano de 38 anos decidiu mudar de vida.
Acolhido em uma das casas de passagem de Taguatinga, nos próximos dias ele vai encarar um novo desafio. Aprovado para o curso de letras, Vlad, como gosta de ser chamado, é o mais novo calouro da Universidade de Brasília (UnB).
A partir de agora, ele garante que não vai mais parar. Pretende se formar, ingressar no mestrado e, posteriormente, no doutorado. “Meu objetivo, com isso, é influenciar pessoas positivamente”, conta.
Bem falante, embora levemente contido, ele gasta palavras rebuscadas de um vasto vocabulário na conversa com as pessoas que o visitam em seu quarto, dividido com outros seis egressos da situação de rua. Entre uma pergunta e outra, ele dispara: “O engraçado é o fato de eu nem ter estudado para a prova. Meu conhecimento vem sendo adquirido há anos com a leitura. ”
No dia da prova, por exemplo, esse amante do reggae estava lavando o banheiro da casa de passagem e quase esqueceu-se da avaliação. “A psicóloga veio me chamar. Disse que eu estava atrasado e precisaria correr. Deu certo”, comemora, com sorriso nos lábios.
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A casa de passagem onde mora o futuro professor é fruto de uma parceria entre a Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes) e o Instituto Inclusão. Há quase seis meses na unidade, Vlad ainda convive com o fantasma de algumas recaídas, mas tem certeza que está cada vez mais perto de vencer o vício. O pesadelo do uso de drogas é descrito em uma das centenas de suas poesias: “Parecem não haver palavras que expressem nem aquelas que definem, imagéticas, sensações e emoções desse submundo. É tudo muito assustador: a dor no corpo, n’alma. Até o espírito sofre”.
Na avaliação da assistente social da Sedes Kariny Alves, o caso de Vlad não é isolado. “O potencial dessas pessoas é enorme. Nosso trabalho vai além do acolhimento. Trata-se de resgate da autonomia, incentivo às potencialidades e atendimento socioassistencial”, explica a especialista ao citar que, recentemente, um acolhido passou na prova da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e outro, um homem idoso, foi aprovado em faculdade privada para o curso de direito.
“São mais de 70 unidades de acolhimento que atendem cerca de duas mil pessoas em alguma situação de vulnerabilidade. Os relatos sobre alguém que superou essa condição são diários. É esse o nosso trabalho”, finaliza Kariny Alves.
Agência Brasília*
Fonte: Agência Brasília
